Por Miguel Roberto Nítolo

Edição 400 de 21/12/2012

Família Barros

Política no sangue

Era uma vez um fazendeiro chamado José Emygdio que se casou com Sebastiana, filha do alemão Karl Schimidt, e com ela teve 14 filhos. Seguiu-se, então, uma infinidade de descendentes, tendo despontado entre eles um governador, um senador, vários deputados e alguns prefeitos

 

Se ainda fosse vivo, teria hoje mais de cem anos. Nasceu em Piracicaba, no início do século passado, uma informação que ganha peso e realce apenas em sua biografia, já que para o povo, em especial as pessoas desta terra, ele é são-manuelense. Entende-se, pois foi em São Manuel que passou a sua infância, tanto que, mesmo sendo filho adotivo da cidade, por ela, jamais escondeu o afeto que sempre nutriu pelo município (afinal de contas ele só não nasceu aqui – o berço de todos os seus irmãos - porque sua mãe, então parturiente de primeira viagem, queria estar perto da família, em Piracicaba). Um dia ele foi embora, para São Paulo, para cursar o primário e, mais tarde, já crescido, ao Rio de Janeiro, então a capital do país, a fim de estudar medicina. Diplomou-se com distinção, passou uma temporada fora do Brasil, frequentou a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e fez a residência médica em hospitais europeus.

Anos depois, todavia, nosso personagem mudou o foco de seu interesse, abandonando a medicina – ele era ginecologista – para se transformar num dos políticos mais influentes, controvertidos e comentados de sua época, até sair de cena aos 68 anos, em 1969.  Morreu de enfarte, em Paris, aonde se exilara para não ser preso pelos generais do golpe de 1964, movimento que, por ironia do destino, ele havia apoiado porque acreditava que a nação retomaria o caminho da legalidade institucional em pequeno espaço de tempo. Enganou-se, já que a ditadura militar estendeu-se de 1964 a 1985.

Adhemar Pereira de Barros ainda habita a memória dos são-manuelenses, notadamente os de idade mais avançada, porque foi uma espécie de ícone que durante anos pautou os passos de políticos de todos os quadrantes. Aqui teve uma legião de seguidores e, carismático, contabilizou admiradores até nas trincheiras dos partidos que lhe faziam oposição. Mas isso não explica tudo. É preciso dizer que Adhemar teve negócios no município e seus familiares – mesmo que alguns deles tenham ido embora – continuaram aqui, atuando com ênfase no ramo agrícola.

Na realidade, a história dos Barros, uma das mais tradicionais famílias de São Manuel, sempre esteve umbilicalmente ligada ao campo. O avô de Adhemar, o fazendeiro José Emygdio de Barros (24/3/1825 – 15/1/1888), era dono da fazenda Boa Vista do Araquá, em São Manuel, propriedade banhada pelo rio Araquá, afluente do Tietê, e em cuja lavoura o café reinava soberano. A bem da verdade, São Manuel ainda não existia quando José Emygdio se instalou de mala e cuia naquele pedaço de chão, vindo de Piracicaba, provavelmente em meados dos anos de 1850, considerando que a cidade foi fundada por Manuel Gomes de Faria somente em 1870, portanto, muitos anos depois.

Os antigos contavam que o dono da Boa Vista do Araquá devia se chamar José Barros, mas que, em homenagem ao padre que o batizara, os pais acrescentaram Emygdio ao seu nome, um hábito de épocas passadas que caiu em desuso ainda no decorrer do século 19. Até aí nada de especial, tendo em vista que a maior parte dos agricultores daquele período vivia da cafeicultura e as pessoas tinham desusada veneração pelos sacerdotes. Mas o enredo que de fato interessa começou a ser escrito nos anos de 1860, quando José Emygdio conheceu a viúva Sebastiana Leopoldina Schmidt, 16 anos mais nova e mãe de Maria Angélica.

Filha de José Carlos Schmidt (um alemão de nascimento e cujo nome verdadeiro era Johannes Karl Schmidt) e de Maria Silveira Franco, a limeirense Sebastiana foi casada em primeiras núpcias com Francisco Prado (seus pais trocaram Atibaia por Limeira, cidade onde ela nasceu, em 1840, atraídos pela nova fronteira agrícola que se abria na região para o café). Refazer sua vida com um grande fazendeiro, portanto, deu a Sebastiana a oportunidade de poder continuar dedicando atenção à cafeicultura, a base dos negócios dos Schmidt. 

Casa-grande – O fato é que agora, como senhora Barros, a feliz Sebastiana foi residir na Fazenda Boa Vista do Araquá, empresa agrícola formada por José Emygdio num lugar onde só existia mata, e que, já naquela oportunidade, além do café, investia na plantação de fumo e milho e na produção de mel e vinho. No entanto, a cafeicultura, sozinha, respondia pelo grosso do faturamento da propriedade, particularidade que elevou aquelas terras a uma posição de realce no ranking dos grandes plantadores de café do país. 

O casal teve 14 filhos, um número elevado para os padrões de hoje, mas perfeitamente compatível com o tamanho da prole daqueles tempos. José Emygdio e Sebastiana foram pais de Domingos Soares, Canuta, Benedito Emygdio, José Emygdio (Deca), Ana Euphrozina, Felipe Epaminondas, João Batista, Antônio Emygdio (Tonico), Sebastião Emygdio, Francisca, Júlio, Carlos Schmidt, Emygdio e Romana. Todos, de um jeito ou de outro, se envolveriam com as operações empresariais do pai, e mesmo Sebastiana não se furtaria a colaborar com o marido na condução dos negócios. 

A presença da esposa no dia a dia da Boa Vista do Araquá passou a ser ainda mais evidente a partir de 1888, com a morte de José Emygdio, aos 63 anos. Geraldo de Barros Neto (“Gê Barros”), trineto de Sebastiana, conta que quando o patrono dos Barros em São Manuel partiu, a fazenda passava por mudanças significativas que tinham o propósito de dar maior incremento às suas atividades. Por exemplo, a propriedade passara a chamar-se Redenção e ganhara um ramal da estrada de ferro para facilitar o escoamento de sua produção agrícola.

Duas composições passariam a correr, diariamente, até a estação local, transportando café e passageiros (todos eles de alguma forma envolvidos com a rotina da fazenda). À época, a Redenção tinha 1.100 alqueires, 500 deles cultivados, e na colônia moravam mais de setenta famílias, quase todas de origem italiana – isto porque os Barros também empregavam japoneses para cuidar de sua plantação de arroz.

À medida que o tempo avançava, Sebastiana e seus herdeiros ganhavam maior projeção no seio da sociedade são-manuelense e importância no mundo empresarial. A família adquiriu mais terras no município e ampliou sua participação na produção de café, fortalecendo sua atuação num segmento que, por um largo período, ocupou a posição de maior gerador de riquezas do país.

Três décadas depois de sua morte, os descendentes de José Emygdio ergueram um novo e amplo casarão para acomodar os descendentes que continuavam residindo na Redenção. A moradia antiga foi colocada a pique e, sobre seus alicerces, construída a casa de máquinas de beneficiamento de café. Paralelamente a essas melhorias, Sebastiana ordenou a construção de uma capela em louvor a São Sebastião ao lado da nova residência e, por iniciativa dos filhos, ainda nos primeiros anos do século passado, investiu-se na edificação de uma residência na zona urbana, na Rua Coronel Joaquim Floriano, ao lado da matriz. 

A casa-grande, como o imóvel ficou conhecido, uma habitação espaçosa que ainda guarda os traços arquitetônicos originais, é, no momento, o endereço de Gê Barros e sua família. “Ela serviu de moradia à minha trisavó Sebastiana em seus últimos anos de vida (ela morreu em 1934, aos 94 anos, época em que a Fazenda Redenção tinha 1 milhão de pés de café)”, relata Maria Beatriz (Bia). Também marcou de forma indelével a caminhada política de Adhemar de Barros, que utilizava a enorme construção como comitê político em suas visitas à região.

Olho na presidência – Apesar de falar quatro línguas – alemão, francês, inglês e italiano –, o que denotava seu elevado grau de conhecimento e intelectualidade, era mesmo com o sotaque carregado do interior que ele se dirigia aos seus eleitores. É preciso abrir um parêntese neste ponto: Adhemar já era casado quando a política entrou nas suas veias. Contraíra matrimônio com Leonor Mendes, nascida na capital, em 1905, e que conhecera em 1926. Dizia que foi amor à primeira vista. Tiveram quatro filhos: Maria Helena, Adhemar Filho, Maria e Antonio. 

Em seus primeiros anos como pretendente a cargos eletivos, o marido de Dona Leonor, como ela ficou conhecida, batia duro em Getúlio Vargas. Em 1932, por exemplo, quando os paulistas pegaram em armas para lutar contra o poder central e sua política antidemocrática, Adhemar dizia que os anos consumidos pela ditadura Vargas sonegavam ao Brasil esperanças de grandiosidade e de desenvolvimento.

Como na política tudo é incerto, o próprio Getúlio, em abril de 1938, nomeou seu desafeto ao cargo de interventor de São Paulo, dando a Adhemar a oportunidade de ouro que ele vinha perseguindo para projetar seu nome no estado. O neto de Sebastiana havia ingressado no Partido Republicano Paulista (PRP) para concorrer, em 1934, a uma cadeira na Assembleia Constituinte de São Paulo, empreitada da qual sairia vitorioso, tendo, em 1935, participado da elaboração da constituição dos paulistas. No ano seguinte, lançou-se candidato a presidente da República, mas sua pretensão parou no golpe militar de novembro de 1937, movimento chefiado por Vargas, então o presidente da nação.

Como interventor, Adhemar ficou à frente dos destinos do estado de São Paulo até 1941, retornando triunfante ao mesmo cargo seis anos mais tarde, só que, desta vez, pelo voto popular. São suas, desse tempo, importantes obras, tais como o emissário do Rio Tamanduateí e a conclusão do Hospital das Clínicas, na capital; o término da construção das vias Anhanguera e Anchieta; e a ampliação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba.

Como a presidência da República não lhe saía da cabeça, Adhemar continuou tentando outras vezes. Saiu candidato em 1950, mas abriu mão da candidatura em favor de Getúlio; na eleição de 1955 não conseguiu suplantar o mineiro Juscelino Kubitschek, que em sua campanha utilizou o slogan “Cinquenta Anos em Cinco”; e, em 1960, bateu de frente com Jânio Quadros. Também aqui levou a pior. Nesse meio-tempo, Adhemar se elegeu prefeito da cidade de São Paulo, em 1957, cargo em que permaneceria até 1961. Novamente tentou o governo do estado, em 1958, mas perdeu para Carvalho Pinto.

Em 1962, no entanto, foi reconduzido ao Palácio dos Bandeirantes após ferrenha disputa com Jânio Quadros, o candidato da vassourinha (varre, varre vassourinha, varre, varre a bandalheira...). Quadros havia regressado de Londres, onde se radicara após ter renunciado à presidência, em 1961, sem nunca ter esclarecido os reais motivos que o levaram a tomar aquela arriscada atitude.

E chegamos ao fatídico ano de 1964, quando encontramos, de novo, o incansável Adhemar alimentando o sonho de chegar radiante a Brasília. Justiça seja feita: ele vinha trabalhando com afinco com vistas a popularizar nacionalmente seu nome para as eleições de 1965, mas a tomada do poder pelos militares inviabilizou seu plano. Adhemar apoiou a derrubada de João Goulart, um político de esquerda que chegara ao Palácio do Planalto quando Jânio bateu em retirada (era seu vice). O postulante ao cargo máximo imaginava que dentro em breve, em nome da ordem democrática, os militares entregariam o poder aos civis. E então ele, como eterno candidato à presidência, poderia, pela enésima vez, concorrer, só que desta feita, imaginava, com grandes chances de ganhar. Ledo engano. Os militares simplesmente endureceram e o que era para ser um governo transitório virou uma ditadura que se prolongou de 1964 a 1985. Por conta dos ataques que passou a desferir contra os donos do poder, cobrando eleições diretas, Adhemar teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos. Ameaçado de prisão, o são-manuelense que nasceu em Piracicaba se exilou na Europa.   

Adhemar foi um representante ilustre da família Barros no campo político, mas não o único. Outros descendentes de José Emygdio e Sebastiana também brilharam nessa atividade, casos dos netos Antonio (senador), Geraldo (prefeito de Lençóis Paulista e São Manuel, deputado estadual por duas vezes e deputado federal) e Oswaldo (prefeito de Lençóis Paulista); dos bisnetos Adhemar Filho (deputado federal por oito gestões), Reinaldo (prefeito de São Paulo), Geraldo (vereador e prefeito de São Manuel) e Paulo Renê (prefeito de São Manuel); e do trineto Reinaldo de Barros Filho (deputado estadual por duas gestões).

 

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