Por Miguel Roberto Nítolo

Edição 398 de 30/11/2012

Família Lanfredi

De mala e cuia

Luigi vendeu tudo o que tinha e emigrou para o Brasil com a mulher e os filhos, convencido de que estava agindo corretamente. O tempo se encarregou de mostrar que ele estava certo.

 

Algumas vezes vinham na frente apenas os pais; noutras, somente os filhos e, em tantas ocasiões, só os parentes. Todavia, não era incomum que da longa travessia do Atlântico participasse toda a família que, na maior parte das situações, se desfazia de seus bens na esperança de reconstruir a vida longe de casa. Foi assim com os Lanfredi: afetados financeiramente pela desordem econômica que tomava conta da Itália, deram adeus à pátria e tomaram o caminho do Brasil, nação que conheciam precariamente apenas de ouvir falar.

Graças às cartas enviadas pelos conterrâneos que emigraram antes, aquela gente sabia que se tratava de um país em construção e que o café era o pilar de suas finanças. Também tinha ciência que, ao contrário de outros tempos, ia ser preciso arcar com o custo da viagem – um desembolso que, até 1902, era feito pelos fazendeiros empenhados em importar mão de obra para as suas lavouras. Por isso os Lanfredi venderam o que tinham em Luzzara, na província de Reggio Emilia, onde nasceram e cresceram, porque estavam indo ao Brasil para ficar.

E foi assim que, ainda na primeira década do século passado, e depois de ansiosos 25 dias – o tempo consumido pelas viagens marítimas da Europa à América do Sul –, o lavrador Luigi Lanfredi desceu no porto de Santos na companhia da mulher e de seis filhos (três homens e três mulheres, todos ainda jovens), acreditando ter feito a coisa certa. Depois dos trâmites legais ainda no porto e de uma rápida passagem pela Hospedaria de Imigrantes, na capital paulista, a família tomou o trem com destino a São Manuel. Luigi não estava dando um tiro no escuro. Ele aprendera ainda na Itália que o município era um dos maiores – senão o maior – cultivador de café do Brasil e, por questões óbvias, sua escolha recaiu sobre a terra dos são-manuelenses.

Em São Manuel, um mês após terem deixado o porto de Genova, na Itália, os Lanfredi se instalaram na fazenda Monte Belo, que despontava como uma das mais destacadas produtoras de café da região. A ambientação da família não foi difícil a despeito do tipo de vida que passaria a levar, bem diferente da rotina em Luzzara. Também não estranhou a espécie de serviço que teria doravante de abraçar, que também não guardava semelhanças com seus afazeres na Europa. Todavia, como as casas da colônia daquela fazenda – e de tantas outras propriedades agrícolas – eram quase que integralmente ocupadas por oriundis, Luigi e familiares se sentiram em casa.

Essa fase dos Lanfredi não é conhecida dos descendentes. “Sabemos, isto sim, que depois de um tempo na zona rural nossos antepassados vieram residir na cidade”, relata Luiz Etore, bisneto de Luigi (Luiz Etore é mais conhecido por “Canário”, funcionário recentemente aposentado da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – Sabesp). Também não há notícias desse tempo. O que teriam vindo fazer na zona urbana? É sabido, contudo, que em determinado momento Luigi fez duas importantes aquisições. “Ele comprou uma chácara nas imediações das terras dos Zaparolli, no final da Rua Coronel Emiliano, e um sítio na estrada que dá acesso às fazendas São Vicente e São José do Lajeado”, esclarece Luiz Etore.

Ponto estrategico – Nessa época, possivelmente ao redor dos anos de 1920, e como já haviam constituído famílias, decidiu-se que os homens da casa assumiriam os negócios criados por Luigi, considerando que as três filhas haviam deixado o convívio paterno tão logo contraíram matrimônio. O sítio ficou sob a responsabilidade de Arturo (que no Brasil virou Artur) e a chácara, onde instalaram um armazém de secos e molhados, sob os cuidados de Etore. O terceiro dos filhos, Cezar, apesar de ter sido incluído no triunvirato imaginado por Luigi para comandar seus interesses, mudou-se para Igaraçu do Tietê e lá criou raízes.

E a vida dos Lanfredi seguiu seu curso. Artur, que se casara com Philomena Zamprônio, em 1910, ou perto disso (a lua de mel foi em Santos), virou fazendeiro e passou a administrar uma propriedade essencialmente voltada para o cultivo de café, mas que também criava ovino e gado. “Não sei exatamente quantos alqueires somavam as terras de meu avô, a não ser o fato de que a sua colônia tinha nove casas”, conta Ana Lúcia Lanfredi Lázaro. E Etore, que se unira matrimonialmente a Josephina Murador, acabaria se revelando um excelente comerciante, qualidade que, por questões óbvias, se refletiria no movimento financeiro do estabelecimento. O comércio dos Lanfredi sabia tirar vantagem do fato de se achar localizado ao lado de uma das mais importantes entradas da cidade. Era por lá que, aos sábados, boa parte dos colonos do município ingressava na zona urbana (a pé, a cavalo ou no comando de troles e charretes) com a finalidade de fazer compras – e, em razão do ponto altamente estratégico ocupado pelo negócio, parcela importante deles, quase todos imigrantes italianos, mantinha conta ali. 

A parceria dos dois irmãos se arrastou assim por um bom período até que Pasqualino, um dos filhos de Artur, foi admitido pelo tio como auxiliar no armazém. Com a morte de Etore, em 1949, parte do estabelecimento comercial coube à viúva e parte a Artur. Com o correr dos anos, entretanto, Pasqualino, que os familiares chamavam de “Dermo”, foi comprando a participação dos parentes e assumindo gradativamente o comando da venda, tendo, anos mais tarde, diversificado os negócios com a abertura de um posto de combustível na Rua Moraes Gordo. Ele ficou à frente do armazém até 1963, quando este foi posto à venda, e, a partir de então, teve suas atenções voltadas exclusivamente para a comercialização de gasolina e álcool e a manutenção de veículos com a inauguração de uma oficina de reparos e tornearia na esquina das ruas Moraes Gordo com Gomes de Faria.

No tempo áureo do armazém, Santino Lanfredi – filho de Artur e o caçula dos homens, respondia pela entrega das mercadorias nas casas dos fregueses, na cidade e na roça, tarefa que ele cumpria na direção de um caminhão Chevrolet modelo Tigre. Era, sem dúvida, uma prestação de serviço diferenciada, já que quase a totalidade do comércio de secos e molhados, na primeira metade do século passado, empregava carroças na realização daquela tarefa.

Santo Antonio – Enquanto isso, Artur conduzia os destinos de sua propriedade rural, o sítio Lanfredi, como ela ficou conhecida. Curiosamente, aquele lado do município de São Manuel havia se transformado numa espécie de território de oriundis e seus descendentes. Além dos Lanfredi eram donos de terras ali os Bertozo, os Geronutti, os Maziero, os Petrongari e os Tarzoni, e, mais recentemente, os Corazza, para citar apenas alguns. 

“Meu avô tinha uma singularidade que o distinguia dos outros sitiantes”, observa Luiz Etore. “Estava sempre de terno, gravata e chapéu, isto no meio do cafezal, em casa ou participando de algum acontecimento na cidade”, destaca. Segundo o neto, Artur era uma pessoa recatada e sua vida se limitava ao sítio. Vez por outra acompanhava Philomena às missas, já que sua mulher, que morreu cedo (ainda não tinha 40 anos) era bastante religiosa.

“Ele era devoto fervoroso de Santo Antonio”, acrescenta Ana Lúcia. A neta relata que Artur não perdia os festejos em homenagem ao santo, e que todos os anos o avô marcava presença nas festividades realizadas com aquela intenção no distrito de Rubião Junior, em Botucatu. As barracas de comes e bebes, do mesmo jeito como acontece ainda hoje, eram armadas ao pé do morro da capela de Santo Antonio, templo inaugurado em 1932 e que em meados de junho recebe romeiros de toda a região. É impossível apontar quantas pessoas participavam desses festejos na época em que eles podiam contar com a presença de Artur, mas é sabido que em junho último passaram pela igrejinha de Rubião Júnior, aproximadamente, de 15 mil devotos.

Como Artur se manteve sozinho após a morte de Philomena, em certo momento de sua vida ele foi morar com o filho Pasqualino na chácara da família. “Anos mais tarde, porém, isto no início dos anos de 1950, se mudou para a casa da filha Nair, que ficara viúva”, conta Luiz Etore. E ali permaneceria até morrer, em 1976, de insuficiência respiratória, conforme o atestado assinado pelo médico Plínio Aristides Targa.

Artur e Philomena tiveram sete filhos, todos falecidos: Pasqualino (Dermo), comerciante, foi casado com Helena Bertozo e pai de Antonio Almir (“Tachinha”), Seide e Lúcia; Rosina, do lar, com Manuel Nepomucemo de Lima (“Neco”), comerciante (Vilma, Isaura, Nilza, Odila, Filomena e Roberto); Luigi (“Gigio”), lavrador e, depois, jardineiro, com Olinda Geronutti (Genival “Ponce”, Lairton, Valter, Lurdes, Carlos José “Zezo”, Maria Regina e Luiz Etore “Canario”); Nair, costureira, com Ellídio Baroni, ferroviário (Nair e Terezinha); Zaíra (“Alzira”), costureira, com Elio Zeminian, professor (Paulo e Reinaldo); Santino, motorista, com Esterina Petrongari (José Antonio, Sônia. Ana Lúcia e Marcos) e Terezinha, professora, com Valdemar Carvalho da Fonseca (Marilda, Adilson, Eliana, Maria Tereza e Edilson).

 

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