Por Miguel Roberto Nítolo

Edição 403 de 25/01/2013

Família Viotto

Que dureza de vida!

As dores da viuvez tornaram aquela imigrante de aspecto frágil mais forte e decidida

 

Colomba era uma mulher criativa. Se a baixa estatura não permitia que seu corpo franzino executasse tarefas que exigia músculos e energia física, ela logo arranjava um jeito de contornar a situação, mesmo que isso pudesse envolver algum esforço que ia além da sua capacidade. A ela cabia cortar e transportar grandes porções de capim gordura do campo até a sede do sítio, cobrindo uma distância apreciável. Agia assim, diariamente, com o argumento de que ao oferecer a gramínea ao cavalo “Pampa” recebia em troca um bom esterco. Mas não era apenas isso. Aproveitava o capim para forrar a cocheira, de modo que misturado às fezes do animal se obtinha um adubo orgânico de excelente qualidade, material que servia para fertilizar os 3 mil pés de café da propriedade. 

Como Colomba procedia para fazer o deslocamento daquele feno, já que o fardo transportado era desproporcional à sua altura e peso? Ela se utilizava de três varas que, deitadas ao chão e ligadas por uma corda uma às outras, formavam uma espécie de estrado, uma área plana horizontal mais ou menos alteada. Sobre ela depositava o capim que era amarrado às varas para não se perder pelo caminho. E para deslocar a carga, Colomba colocava a curiosa plataforma de pé junto a uma árvore com o capim voltado à frente. Depois, ajeitava o lenço na cabeça, encostava-se naquilo de maneira que pudesse prender as varas sobre seu dorso e, arqueada pelo peso, cobria, sôfrega, o trajeto até a cocheira.

Por que Colomba se submetia àquele sacrifício? Porque o marido, Luigi Viotto, havia morrido anos atrás e ela, mesmo em idade avançada, se sentia na obrigação de participar da rotina do sítio da família, no distrito de Aparecida. É certo que os filhos estavam sempre presentes, mas ela queria ser útil. A mulher destemida viajou ao Brasil, em 1887, com destino a Botucatu, na companhia de Luigi. Felizes – haviam contraído matrimônio antes de emigrar –, os dois planejavam construir suas vidas na América oferecendo seus préstimos à lavoura de café. Por isso, atenderam ao chamamento de um fazendeiro do vizinho município que, a exemplo de praticamente todos os agricultores daquele tempo, se servia da mão de obra italiana para dar cabo das suas necessidades no campo. “Foram 32 dias no mar”, relata Álvaro Alceu, de 86 anos, neto de Luigi, referindo-se ao tempo consumido na travessia do Atlântico. 

Luigi Viotto tinha 26 anos quando deixou a Itália. Veio sem saber exatamente nada sobre semeadura, plantio e colheita do café. Aquilo era uma coisa nova para o jovem imigrante, acostumado em sua terra natal a outras culturas e onde a uva ainda hoje se sobressai como um dos produtos de maior envergadura na pauta agrícola do país. Mas esse desconhecimento não criou dificuldades para o ingresso de Viotto no mercado de trabalho, considerando que todos os europeus que no passado se fixaram nas fazendas brasileiras se adaptaram rapidamente à vida na roça.

Depois de uma temporada em Botucatu, os Viotto se transferiram para a zona rural em São Manuel. Os descendentes não sabem informar onde, afinal, os avós se estabeleceram (os netos que residem aqui, todos em idade bastante avançada, não chegaram a conhecer Luigi, daí, inclusive, a desinformação sobre sua personalidade e seus feitos). Sabem que em determinado momento a família se concentrou no Distrito de Aparecida. Por isso a história desses desbravadores é em grande parte centrada na figura de Colomba Miotto (esse era o seu sobrenome) e seus filhos. 

Terço em latim – Colomba era uma mulher decidida que enfrentava as adversidades com a mesma determinação como realizava as tarefas mais simples como dona de casa. E isso ficou bastante claro quando, sozinha, teve que se virar para cuidar dos oito filhos, uma guerra diuturnamente travada contra a falta de dinheiro e suas consequências, mas que ela venceu com bravura. “Meu pai, com apenas 9 anos, um dos filhos mais velhos, foi trabalhar numa fazenda em troca da comida”, conta Álvaro Alceu. “É claro que ele obteve o consentimento de minha avó, que aprovou a ideia porque naquela residência simples de sítio era muita boca para pouca comida”, diz.

Na realidade, todos os filhos, ainda menores de idade (Augusto, José e Francisco) foram autorizados pela mãe a trabalhar em outras propriedades. As filhas, também menores (“Nina”, Augusta, Virgínia, Ercília e Maria), ficavam em casa fazendo companhia a Colomba e executando pequenos serviços domésticos. A vida seguiu assim seu curso quando a maioridade chegou e os varões assumiram suas responsabilidades no sítio da mãe.

Todavia, era pouca terra para muita gente, situação que, de tão caótica, serviu de estímulo para que cada um dos filhos se tornasse agricultor mediante a aquisição de propriedades vizinhas. Foram contraindo matrimônio e deixando o lar materno, mas mantinham uma espécie de plantão para não deixar a mãe na mão. Ou seja, tocavam as suas lavouras de café, mas prestavam total assistência a Colomba.

Francisco, por exemplo, assumiu o compromisso de cuidar de 2 mil cafeeiros da propriedade da mãe, e José o restante. “Eles colhiam e comercializavam o grão no mercado”, conta a bióloga Maria José Salete Viotto pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), neta de Francisco e filha de Álvaro Alceu. Ela conta que, após descontadas as despesas, o lucro era integralmente repassado a Colomba, sua bisavó.

Com a partida dos filhos e o casamento das filhas – que seguiram os passos dos maridos –, a viúva de Luigi Viotto ficou só. Entretanto, para que não passasse as noites na mais completa solidão (durante o dia tinha a companhia dos filhos, que moravam nos arredores) os netos, que ainda cursavam o primário, iam dormir com ela. “Antes de se recolher minha avó orava em latim e tínhamos de acompanhá-la mesmo sem entender nada daquilo”, conta Álvaro Alceu. 

O neto recorda-se muito bem desse tempo. Corriam os anos de 1930, um período politicamente conturbado ao Brasil, especialmente para São Paulo, estado que, em 1932, pegou em armas contra o poder central em nome de uma nova Constituição e da convocação de eleições para presidente. Enfurnados na roça, os Viotto, pode se dizer, passaram ao largo desse conflito. A preocupação da família era outra e as atenções estavam voltadas para o bem-estar de Colomba.

Augusto bem que tentou mudar esse quadro, erguendo em seu sítio um quarto para a mãe. Ela relutou no começo, mas chegou a se mudar para lá. Pela manhã, no entanto, tomava o caminho de suas terras com a justificativa de que era preciso cuidar do café, cortar capim e dar assistência ao cavalo “Pampa”. A despeito de todos os esforços em favor de sua permanência na casa de Augusto, o presumível acabou acontecendo. Mulher independente, a italiana renitente retornou sorrateiramente para a antiga residência indiferente aos apelos do filho. Como em tantas outras oportunidades, Colomba se fizera de ouvidos moucos e partiu.

A avó de Álvaro Alceu morreu em 1938, aos 75 anos. “Eu tinha, à época, 12 anos, mas a tristeza foi igual para adultos e crianças”, ele se recorda. Como os filhos eram senhores de suas próprias terras e às filhas não interessava assumir a pequena propriedade, o sítio que se convertera no mundo de Colomba desde a morte do marido acabou sendo vendido. 

Rei do laço – É possível que Francisco tenha sido o filho de Luigi Viotto que mais envolvimento teve com o campo e a lavoura de café. Sua primeira propriedade tinha 12 mil cafeeiros contra 3 mil de Augusto e outro tanto de José. Mas não ficou nisso. Segundo Álvaro Alceu, os três viriam a adquirir em Pratânia, em sociedade, em meados da década de 1930, a Fazenda Dois Córregos, 100 alqueires de campo, mata e terra de cultivo. “Meu pai e meu tio Augusto iam até lá, diariamente, a cavalo, já as mulheres cobriam a pé o longo percurso.”

Decorrido algum tempo, os irmãos venderam a propriedade por 60 mil réis, cabendo, portanto, 20 mil réis a cada um. Francisco viria a adquirir uma série de outros sítios, empenhando-se em dar asas ao seu tino empresarial e, por extensão, oferecer conforto à família. Os traumas trazidos da infância, quando era obrigado a trabalhar de graça em troca de comida, certamente estavam por trás desse curioso estilo empreendedor. “Começou comprando uma área em Aparecida, com 12 mil pés de café e duas residências. Deu 20 mil réis de entrada e assumiu uma dívida de 40 mil réis”, conta Álvaro Alceu. Depois, adquiriu dois sítios em Pratânia, de 30 e 10 alqueires, respectivamente. Três anos mais tarde vendeu a segunda propriedade para um vizinho e com o dinheiro comprou de uma família de origem alemã, de mudança para Garça, uma pequena fazenda de 60 alqueires, também em Pratânia, parte tomada pela mata e parte cultivada com algodão. “Logo após desembolsou 25 mil réis pelo sítio vizinho, de 32 alqueires, iniciativa que tinha em mira juntar as duas áreas”, conta o filho.

Francisco casou-se com Antonia Marcusso, natural de Mineiros do Tietê, em 1917, ou por volta disso, e com ela teve 14 filhos: Luiz Antonio, Justino, Antonio Florindo, Maria de Lourdes, Armando, Álvaro Alceu, Alcides, Francisco Sebastião, José Alfredo, Tereza de Jesus, Angelina Aparecida, Maria, Pedro e Natalina. Francisco alimentava um sonho: deixar um sítio para cada filho, objetivo plenamente atingido mesmo que à custa de muito sacrifício A propriedade que coube a Álvaro Alceu, em Pratânia, e que ele recebeu das mãos do pai 50 anos atrás, continua em seu poder. “Eu a visito diariamente”, diz, esclarecendo que, apesar da idade, ele mesmo dirige o veículo que o leva até lá, uma perua Parati 1989. 

E o que falar de Justino, um dos primeiros filhos de Francisco, falecido em 2005 e que se tornou conhecido em todo o país pela qualidade dos laços que produzia em seu sítio, também no Distrito de Aparecida? A imprensa não economizava elogios ao trabalho daquele são-manuelense famoso. “Os fazendeiros diziam que o Justino sabe trabalhar com a alma do couro”, escreveu certa vez a revista “Veja”, completando que “ele consegue fazer as tralhas com uma habilidade manual tão ágil quanto os cavalos que costuma aparelhar”. Em 2000, em depoimento a um jornal, o filho importante de Francisco Viotto relatou que aos 17 anos, por problemas de saúde, já não conseguia mais cavalgar e, com o tempo, foi ficando arqueado. “Precisava de uma ocupação, fazer alguma coisa. Então, comecei a mexer com couro e não parei mais.” Justino se foi – se fosse vivo teria hoje 94 anos –, mas o laço que o projetou Brasil afora continua em franca produção, agora pelas mãos do filho Odécio.

 

Central São-manuelense de Comunicação – Jornal O Debate, Rua Cel. Rodrigues Simões, 69
Centro – São Manuel – SP, Telefones (14) 3842.3637 / 3841-4459 – contato
Desenvolvimento e Hospedagem: TeraQualy